Portugal

Sensações do Porto

O Porto é mãe, é a Ribeira, são os putos que correm pelas ruas depois de um dia de escola e as mulheres que se assomam das janelas para matar tempo, são dia-a-dias de gente simples e humilde envoltos numa nostalgia antiga em cada olhar que cruzamos.

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Miradouro do qual já não me lembro o nome

Desde a janela do quarto oiço gritar lá fora com a tal pronúncia do Norte: “Bai mas é trabalhar!” e penso nas vidas que se cruzaram naquele dia com a minha, as vidas de uma cidade com uma personalidade fora do vulgar.

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Vista desde a janela do quarto onde fiquei

Lembro-me da força com que a senhora lava o chão, o cheiro a detergente de lavanda, a maneira como ela esfrega freneticamente. O barulho dos berbequins, o som de todas as ferramentas e maquinarias que se misturam, os calceteiros que trabalham desenfreadamente, as peixarias, drogarias, mercearias e antigos negócios locais que continuam funcionando e gente que remodela a sua casa a cada esquina interrompendo alguma rua estreita com escadotes, móveis e alguma carrinha estacionada à porta. Esta é uma cidade operária sem sombra de dúvidas.

Entrei na zona da Ribeira e já não quis sair, rendi-me de amores por ela.

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Perder-se pelo Porto…

 

Sentei-me numas escadas para descansar onde havia pouca iluminação e observava a Ponte D. Luís I. Uma noite junto ao Douro, ao Douro quotidiano na vida destas gentes e para mim uma atmosfera de poesia e sons carregados de energia e actividade por todos os cantos. Os gatos sentam-se nos telhados espreguiçando-se enquanto desde as janelas oiço alguma mulher do Norte lavar a loiça depois de jantar muito atarefada e mal dizendo os afazeres da vida. Nunca me esqueço destas sensações que o Porto me deu e da noite que balançava ao luar naquela escadaria que baixava ao rio.

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Eléctrico do Porto, uma das minhas melhores fotos

A luz do Porto é uma luz cinzenta e sombria que se abate sobre um mar de casas gastas e vividas nas margens de um rio que podia ser outro qualquer mas não é. É o Douro e tem alma e tem os seus Rabelos que lhe dão vida com um toque doce a vinho do Porto e cheiro a madeira húmida.

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Rabelos no Douro

Não tenhas medo de subir, não tenhas medo do cansaço , vais encontrar a felicidade em cada miradouro que encontras, em cada conversa que sem intenção absorves ou mesmo numa patanisca de bacalhau no jardim mais próximo para uma viajante  faminta como eu ou se quiseres come nos restaurantes baratos que encontras por todos os sítios.

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Outro miradouro onde se vê a catedral e a ponte

Atravessar a conhecida Ponte construída por um discípulo de Gustav Eiffel para me sentar de frente para a Invicta foi rotina diária.Desde Vila Nova de Gaia até à Avenida dos Aliados de Metro enquanto eu me deliciava com as vistas desde a ponte, a maioria lia o jornal ou encerrava-se no seu smartphone. Para eles é só mais um dia normal com a mesma panorâmica de sempre. Como os invejei , também queria sentir o mesmo , queria sentir como é conviver com algo assim tão poético de maneira banal, só mais um dia como todos os outros onde nem olhas pela janela perante tal visão , um simples regresso a casa só isso nada mais.

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Porto desde Gaia

Entardecia suavemente e não resisti a beber um galão enfrente à estação de São Bento ,a conhecida estação de comboios  revestida com cerca de 20.000 azulejos que retratam a evolução dos transportes e cenas da história e vida de Portugal. No Porto pode-se encontrar muita arte azulejar por todos os lugares principalmente pelas igrejas espalhadas pela cidade.

Dei um passeio até a zona da Torre dos Clérigos, a majestosidade com que se eleva pelos céus dos portuenses é evidente desde qualquer ponto, o maior edifício do Porto construído entre 1749 e  1763 é o principal conjunto barroco da cidade e de seguida mais um cliché.

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Torre dos Clérigos

A concorrida Livraria Lello a funcionar desde 1906 é um interessante edifício de estilo neo-gótico conhecida pela sua escada para aceder ao segundo piso e que inspirou a escritora J.K Rowling entre muitos outros escritores. Aqui mergulha-se numa atmosfera literária e alquímica onde a sabedoria, a arquitectura, os vitrais e os livros formam uma espécie de Pedra Filosofal em torno de um soalho de madeira que range aos nossos passos entre estantes altas e cadeirões antigos.

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Livraria Lello, quando estive ainda era grátis

Perdida novamente entre ruas e miradouros assomava-se  a Catedral do Porto lá ao fundo entre o casario, quando nos demos de caras, eu e a Catedral decidi visitá-la pois foi a partir daqui que se expandiu a cidade. Construída no Séc. XII ,apresenta características de três estilos arquitectónicos : Românico , Barroco e Gótico.

 

Não podia faltar a Francesinha que comi num daqueles cafés de toda a vida onde se encontram as mesmas pessoas todas as tardes e vem as famílias da vizinhança beber a bica depois de almoço, tudo isto na mesma rua da Residencial.

Ficou muito por descobrir numa cidade em que tudo são sensações, sons de Rabelos, eléctricos e gaivotas que gritam fazendo eco num rio e numa cidade marcado pelo tempo , pela história e pelas vidas que habitam esse outro universo que é o Porto.

 

(Este post deriva do meu blogue antigo)

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3 opiniões sobre “Sensações do Porto

  1. Para ser sincera não saí à noite no Porto, estive lá à cerca de 4 anos e a memória falha mas penso que sim 🙂 e olhe velhos são os trapos eheheh

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